Na última noite visitámos os abandonados da casa amarela. Não sabia o que podia levar do meu pai escondido e foi ali que o fui encontrar. O Rodrigo foi comigo, abandonados os medos dos espectros, circulámos com tantos outros pelo círculo da prisão de segurança. Tudo estava higienizado, parecia, pelo Miguel Bombarda. Mas ainda um odor idoso, mas ainda um braço arrepiado. O meu pai escondido não tinha ali estado, pensei, como o Jaime ou o João de Deus, projectados na grande tela. Mas ainda um reflexo de isolamento engoliu os mais atentos. Arcturus, na nossa mira, sossegava-nos, vamos encontrar-nos, sóbrios na égide da razão. O meu pai escondido não tinha ali estado mas foi um bocado daquilo que levava refugiado em ecos, sussurros calmos, e cartas de jogar. Da terra, do campo, como o Jaime, há terra para cuidar. O arado, os animais, o vinho e o corpo cansado. Os pensamentos são das uvas, da chuva ou falta dela e dos bichos danados. Não há tempo para ti, leva quem tu és pelo chão engolido, meu pai assim escondido. A natureza volta à tona com um grito, a loucura inconformada em círculos solitários, um odor idoso e um braço arrepiado. E porque não levar a vida assim escondido na casa amarela, comida na mesa e roupa lavada? Bem, a vida está lá fora e assim calmamente nos fizemos levantar. Abandonámos o círculo e sem vozes invadimos a enfermaria e levámos os loucos de mão dada. "Vai e dá-lhes trabalho", foi a libertação do João de Deus. A multidão também sente essa chamada. Mudos, saímos, com alguns espectros consolados e abandonámos o Miguel Bombarda.
Monday, August 27, 2012
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